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VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIV
A FRANÇA E VISITA À SEDE DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO)

25-28 DE SETEMBRO DE 2026

VISITA À ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO)

DISCURSO DO SANTO PADRE

Sede da UNESCO (Paris)
Sexta-feira, 25 de setembro de 2026

[Multimídia]

___________________________________

Senhor Diretor-Geral,
Senhor Presidente da Conferência Geral,
Senhor Presidente do Conselho Executivo,
Excelências,
Senhoras e Senhores,

É com grande satisfação que me encontro hoje nesta Assembleia das Nações, onde as línguas e as culturas se cruzam para cooperarem num projeto que envolve toda a família humana: «Contribuir para a paz e para a segurança, promovendo colaboração entre as nações através da educação, da ciência e da cultura, para fortalecer o respeito universal pela justiça, pelo estado de direito, e pelos direitos humanos e liberdades fundamentais» (Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, art. 1º, nº 1). Construir juntos um mundo mais justo é, na verdade, o próprio fundamento da cooperação internacional. As nossas experiências, aptidões e competências visam edificar um espaço acolhedor para todos e fecundo para cada um, a fim de que os povos possam crescer na paz.

Enquanto testemunha da paz, dirijo as minhas cordiais saudações aos representantes dos Estados-Membros e Observadores, das Organizações internacionais, do mundo académico e da sociedade civil. Agradeço ao senhor Khaled El-Enany, Diretor-Geral desta Organização, pelo seu cordial convite [e pelas palavras que nos dirigiu]. Na qualidade de pastor, transmito-vos a palavra da Igreja, que se torna incessantemente «mensagem» e «diálogo», destinada a todos os povos, mulheres e homens de boa vontade (cf. Paulo VI, Carta Encíclica Ecclesiam suam, 38).

O projeto de construir juntos um mundo mais justo coincide com uma missão que aprendemos a partilhar ao longo da história. A este respeito, a UNESCO representa, simultaneamente, uma meta e um instrumento para prosseguir esta tarefa, hoje com empenho redobrado, de acordo com as nossas múltiplas áreas de atividade. Em 2027, celebraremos o 75º aniversário da presença da Santa Sé na UNESCO: uma presença que decorre da convicção de que o futuro depende, acima de tudo, do respeito e da promoção da dignidade inalienável de cada ser humano criado à imagem de Deus. É por isso que consideramos esta Organização um interlocutor privilegiado ao serviço do bem comum, que é a «forma social da dignidade» que todos partilhamos de forma originária e igual (cf. Carta Enc. Magnifica humanitas, 59). A partir de 1952, a Missão Permanente de Observação da Santa Sé discerne e acompanha, nesta perspectiva, as iniciativas da UNESCO, dando o seu contributo para o diálogo entre as Nações, a fim de apoiar um autêntico desenvolvimento humano, que só é tal quando orientado para «promover todos os homens e o homem todo» (Paulo VI, Carta Enc. Populorum progressio, 14).

Falando a esta assembleia, o meu venerado predecessor São João Paulo II, recordava que «genus humanum arte et ratione vivit». Uma vez que, com efeito, «o homem vive uma vida verdadeiramente humana graças à cultura» (João Paulo II, Discurso na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, 2 de junho de 1980; cf. Tomás de Aquino, In Aristotelis Posteriora Analytica, 1), esta última palavra indica o modo de ser através do qual o homem dá sentido a tudo o que faz. Quarenta e seis anos mais tarde, ao renovar entre vós o compromisso de colaboração da Santa Sé, convido-vos a considerar a UNESCO não só como uma ilustre organização internacional, mas também como um lugar onde a humanidade reflete sobre si própria, a sua história e o seu futuro. Na verdade, é impossível promover a educação, as ciências e a cultura sem promover a vida do homem e da mulher, que são os seus protagonistas.

No âmbito da educação, a Igreja Católica traz consigo uma experiência muito antiga: há séculos que as suas comunidades abrem escolas e universidades, ensinam a ler e a escrever e estão presentes mesmo nos locais mais pobres e remotos. Com o Pacto Educativo Global, o meu predecessor Papa Francisco quis inserir esta experiência numa aliança educativa mais ampla, aberta ao contributo de todos. Mas o que desejo transmitir-vos não são, em primeiro lugar, as obras: é a convicção da qual essas obras decorrem. Nenhuma educação é completa, se não abordar a questão do sentido. Nesse mesmo discurso, São João Paulo II recordava: educar é ajudar o homem a «ser» mais e não apenas a «ter» mais, reconhecendo também a transcendência da pessoa que pertence à plenitude da sua humanidade (cf. ibid., n. 10-11).

Nesta assembleia, portanto, há uma questão fundamental que merece ser explorada, e que nos interpela com urgência: o que significa ser humanos? Todas as culturas são envolvidas nesta reflexão, que está no cerne de cada conhecimento, arte e religião. Afinal, mesmo no século XXI, não podemos dar por garantido que sabemos quem é a pessoa humana ou o que significa viver como ser humano. Realmente, cada geração é chamada a lidar com este desafio cultural, especialmente perante as tragédias que, lamentavelmente, ocorrem ainda hoje.

Antes de mais, a pessoa humana é alguém que é concebido e nasce. Por isso, ser humano significa, em primeiro lugar, ser filho. Nenhum de nós escolheu sê-lo. Ninguém decidiu de quem, quando ou onde nascer. Esta evidência ilumina algo que não é meramente biológico, mas ético: enquanto filhos, somos todos irmãos e irmãs. Desde o início, a nossa humanidade é um dom e uma prova, uma promessa e uma responsabilidade. Para todos os seres humanos, a geração implica um laço original, uma comunhão de vida que tem a sua fonte e o seu primeiro ambiente educativo na família.

Em segundo lugar, todos nascemos nus e necessitados. Somos pobres desde o nascimento: carentes de pão e de palavra, de cuidados e de afeto; ou seja, de tudo o que nutre o corpo e o espírito. Sabemo-lo bem; no entanto, à medida que nos tornamos adultos, corremos o risco de o esquecer. São precisamente os desvalidos que sofrem as maiores consequências deste esquecimento, sempre que a sua humanidade é traída ou posta de lado, explorada ou enganada. Esquecer o nosso nascimento obscurece a ideia de vida humana, porque a separa da história comum a todos nós. Assim, a vida deixa de ser entendida como dom, passando a ser vista como uma mercadoria. Já não é vista como um apelo ao cuidado e à responsabilidade, mas como um produto a ser explorado. Esta dramática alternativa lembra-nos exatamente que ser humano é ser livre por natureza. Por sermos filhos, a nossa liberdade começa respondendo à liberdade de quem primeiro se dirige a nós com gestos de dedicação ou de rejeição, de acolhimento amoroso ou de negligência e crueldade.

Em terceiro lugar, lembrar da nossa humanidade comum significa reconhecer que ela é magnífica, isto é, com seu imenso potencial, mesmo que esteja reduzida por muitas formas de mal e injustiça. Quem se dedica à educação, à ciência e à cultura é chamado mais ainda a cuidar de cada pessoa, para que a beleza da nossa liberdade possa resplandecer. Esta beleza tem um nome: justiça. Sim, a liberdade é bela quando está orientada para o bem e para a verdade; desfigura-se quando caí na arbitrariedade, na violência ou na sede de poder. Portanto, sermos humanos implica uma responsabilidade perante a história: o ser humano é um ser que cresce, aprende e trabalha com a mente e as mãos. Através do trabalho, pode cultivar a terra ou desfigurá-la, criar obras de arte ou destruí-las. Nesta conjuntura específica, devemos reconhecer que a mais terrível das “obras humanas” é a guerra, porque nela a própria ciência é colocada ao serviço de uma vontade desumana de destruir e matar.

A este respeito, o Preâmbulo da Constituição da UNESCO começa com palavras que – como vimos no Wall of Peace – continuam surpreendentemente atuais: «Uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz» (Constituição da UNESCO, Preâmbulo, 1945). Estas palavras foram escritas logo após a tragédia mais destrutiva do século passado: a Segunda Guerra Mundial. A humanidade tinha compreendido que o progresso científico, quando separado da sabedoria, pode transformar-se numa arma devastadora; que a cultura, quando se submete à ideologia, pode tornar-se mentira e propaganda; que a educação, quando renuncia à verdade, degrada-se em instrumento para manipular as consciências. Os Estados fundadores da UNESCO compreenderam que os tratados são necessários, mas insuficientes por si só. Estes requerem uma cultura e um compromisso partilhado com a paz que os sustente. A paz não pode ser construída apenas com tratados, nem por meio de compromissos entre forças opostas. A paz é verdadeira quando brota da virtude da justiça, mais do que de um mero contrato; de uma retidão de vontade, mais do que de um equilíbrio instável de interesses. Realmente, só uma vontade reta pode reconhecer no outro um irmão ou uma irmã, uma pessoa semelhante a si próprio.

Oitenta anos depois, as palavras da vossa Carta Constitutiva não perderam em nada a sua força. No entanto, constatamos também o quanto este princípio comum esteja profundamente ameaçado por formas de barbárie que fomentam rivalidades e conflitos. Entre os desafios que hoje se colocam ao mundo científico e educativo, destaco particularmente os que se apresentam no vasto campo da tecnologia. Os nossos esforços neste sentido devem fazer com que as novas tecnologias continuem ao serviço da pessoa humana, em vez de se tornarem um novo instrumento de domínio e injustiça.

Ao longo dos séculos, muitas atividades outrora realizadas pelos seres humanos foram confiadas às máquinas, cujas capacidades e aplicações continuaram a expandir-se. Mais recentemente, foi até atribuído a alguns sistemas artificiais o nome da nossa faculdade humana de pensar: inteligência. Ao mesmo tempo, porém, as nossas ideias e relações correm o risco de serem empobrecidas devido a um processo de desumanização. O paradoxo tornou-se cada vez mais evidente: enquanto a “inteligência” é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana, cuja vida é avaliada com base no critério da eficiência e, quando considerada já não produtiva, é rejeitada e descartada.

Esta dolorosa realidade convida-nos a refletir tanto sobre a fragilidade da nossa natureza quanto sobre a imensa dignidade de cada pessoa humana, uma dignidade que permanece intacta mesmo nas circunstâncias mais vulneráveis, até à própria morte. Sim, o ser humano é, sem dúvida, aquele que nasce, mas é também aquele que morre. A nossa dignidade não é destruída pela doença ou pela dor, nem depende do desempenho de que uma pessoa é capaz. Pelo contrário, requer cuidados amorosos em todas as fases da vida.

Para a fé cristã, o mistério da pessoa humana encontra a sua plena luz em Cristo, que «na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 22). À sua luz, cada pessoa apresenta-se-nos como uma criatura desejada e amada por Deus. Esta luz ajuda-nos também a compreender mais profundamente o significado da nossa experiência humana comum.

Senhoras e Senhores, em nome da nossa história comum, enquanto homens e mulheres de ciência, sois constantemente chamados a cooperar para que da diversidade de perspectivas possa surgir uma convergência de visões e, dessa convergência, uma harmonia de ação. Esta harmonia encontra expressão na obra da UNESCO quando dá voz sinfónica aos mais elevados propósitos de bem e de cuidado pela humanidade. Onde há harmonia, há acordo entre vozes diferentes e, por conseguinte, concórdia entre as Nações que representais.

A este respeito, gostaria de recorrer a duas imagens da Bíblia, o grande código cultural da humanidade: a Torre de Babel e a praça de Pentecostes. Apresento-as a vós como maneiras de representar a unidade da família humana que, ainda hoje, é continuamente chamada a discernir a direção e o sentido da história que atravessa. Estas passagens bíblicas narram, com efeito, duas formas sociais que nos levam a refletir sobre as circunstâncias do nosso presente.

A Torre de Babel representa uma unidade imposta pelo domínio (cf. Gn 11, 4). Ao mesmo tempo, esta construção revela que quanto mais o poder oprime, mais ele se enfraquece, mostrando a sua face desumana. Isso é visível nos sofrimentos e injustiças causados pelo despotismo, bem como na exploração que fere a sociedade e o ambiente. Como nos ensina a história, muitos impérios celebraram a sua prepotência, antes de se consumirem e ruírem como uma torre. O resultado dessa soberba, exaltada e destruída, é a dispersão. A presunção de se tornar semelhante a Deus e de submeter os povos a um único jugo tem como resultado a confusão das línguas e a incompreensão geral. Em vez de alcançar o céu como pretendia, a Torre de Babel desmorona-se com um duplo efeito negativo. Assim como a unidade que impunha era forçada, também a diversidade que se segue ao seu colapso é conflituosa. Hoje, a tentação de Babel volta a apresentar-se numa desejada globalização sem fraternidade, no ávido colonialismo financeiro, nas imposições ideológicas, em todos aqueles «contatos sem laços» que reduzem a vida humana a um comércio (cf. Comissão Teológica Internacional, Gaudium et Spes, 42). A própria ciência, quando reduzida a uma técnica de poder, já não serve para elevar a pessoa humana, mas, pelo contrário, corre o risco de degradar os frutos desse esforço.

Hoje, em particular, dispomos de instrumentos capazes de conectar instantaneamente pessoas e continentes, mas assistimos a novas formas de isolamento, de miséria material e espiritual, de abandono. A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria. Sem uma deontologia compartilhada, os mais variados canais de comunicação correm o risco de multiplicar informações falsas ou de utilizar palavras sem significado, dificultando o diálogo em vez de o promover.

A inteligência artificial acentua este problema: embora estes sistemas sejam capazes de estabelecer correlações entre dados, não conseguem responder a perguntas sobre o sentido da existência humana, que tem as suas raízes na experiência vivida. No entanto, os seres humanos não podem viver sem sentido. O sentido é o oxigénio da mente. Por isso, os desafios comunicativos, que são sempre desafios educativos, impõem a questão da verdade como tema de justiça social e de equidade histórica. É por isso que a educação neste âmbito é essencial, e congratulo-me com a iniciativa da UNESCO por meio do seu programa de Alfabetização Midiática e Informacional (AMI), que promove o uso responsável dos meios de comunicação social e das ferramentas digitais.

Efetivamente, a linguagem, sem a verdade, acaba por se submeter à lógica da violência e à vontade arbitrária dos poderosos. Assim, os outros são excluídos em nome do lucro e os inocentes são mortos em nome da liberdade. Em vez de respeitar a lei, quem detém o poder invoca-a quando ela serve aos seus interesses e ignora-a quando esta os limita, chegando mesmo a tratar a justiça como uma mercadoria que se compra e vende. Se percebermos que a corrupção da lei tem a sua origem na corrupção do coração, podemos compreender que qualquer ciência, praticada sem ética, corre o risco de perder o sentido, deixando de servir e refletir a dignidade humana.

A tal respeito, exorto a comunidade internacional no seu conjunto a dedicar especial atenção à proteção das crianças e jovens. Na era digital, a sua vulnerabilidade nunca deve tornar-se ocasião de exploração. Possam estas tecnologias apoiar o seu crescimento, a sua formação e as suas relações, salvaguardando a sua liberdade de pensar e discernir, e permanecendo sempre ao serviço da dignidade da pessoa humana.

A corrupção da cultura de que estamos a falar é resgatada na praça de Pentecostes. Ali, uma mensagem de paz é acolhida por todos os povos como boa nova. Esse anúncio proclama a ressurreição de Jesus, ou seja, a vitória da vida sobre a morte, a salvação que dá esperança ao mundo. No dia de Pentecostes, a praça torna-se o local onde se celebra a paz que cura todas as ofensas à pessoa humana. Cada um ouve esta mensagem «na sua própria língua» e a comunhão não impede, de modo algum, a diversidade (cf. Act 2, 8). Pelo contrário, permite que ela floresça na harmonia das vozes e dos rostos. No anúncio da paz, a variedade das culturas torna-se veículo de uma verdade universal. O ensinamento bíblico indica-nos assim o caminho para alcançar o que todos procuramos: «aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo» (Homilia na Celebração Eucarística pelo Início do Ministério Petrino, 18 de maio de 2025). Não é a prepotência de Babel, mas a paz de Pentecostes que possibilita essa comunhão entre os povos. Cada cultura realiza, portanto, a mais alta sabedoria quando procura a paz e o bem de todos, testemunhando o sentido autêntico da nossa humanidade.

Quem trabalha no campo da educação sabe que só a verdade nos torna livres; quem ensina e quem faz investigação sabe que o erro nos faz escravos da ignorância e da superstição. Sempre que encontrarmos obstáculos à nossa missão, lembremo-nos de que existe apenas uma Terra para todos e uma única e comum natureza humana. O ser humano não pode ser compreendido separando o que pertence a um todo: corpo e alma, vida pessoal e relações, o nosso relacionamento com os outros e com o ambiente. Tudo faz parte da unidade da nossa existência. Por isso, cultivar a terra implica cultivar a humanidade que habita nela. A educação e a ciência são chamadas a esta tarefa. Na verdade, como ensina a etimologia do termo, cada cultura é cultivo. Assim sendo, renovo o apelo dos meus predecessores para que cuidemos conjuntamente da pessoa humana e da criação: o Papa Bento XVI falou da necessidade de uma ecologia da pessoa humana, enquanto o Papa Francisco desenvolveu a perspectiva da ecologia integral (cf. Bento XVI, Discurso ao Parlamento Federal Alemão, 22 de setembro de 2011; Francisco, Carta Encíclica Laudato si’, 137–162).

A pedra de toque que nos permite avaliar este nosso empenho é o cuidado que temos pelos mais pobres e pelos pequeninos: crianças no ventre materno e nos diversos cenários de guerra, pessoas com deficiências físicas e intelectuais, idosos, migrantes, refugiados e todos os que a soberba exclui como improdutivos. São eles a prova definitiva das nossas afirmações de respeito à dignidade humana, cuja proteção e promoção se estendem também à criação. Em sentido contrário, encontra-se uma vontade de exploração e pilhagem que visa extrair o máximo possível de cada ser vivo, consumindo sem preservar, destruindo sem cultivar. Portanto, a atual crise ecológica é uma crise antropológica; além disso, a Igreja está convencida de que cada cultura encerra em si uma sabedoria, que amadurece num ecossistema dos povos. Sim, o habitat da pessoa humana é, sem dúvida, a sociedade: não um ambiente meramente físico – como o deserto ou o oceano para os animais –, mas moral e relacional. Na paz social, os povos prosperam segundo a justiça.

Consequentemente, a UNESCO encontra a síntese das suas elevadas tarefas educativas e científicas no trabalho paciente de construção da paz. Face às numerosas e complexas urgências do nosso tempo, o mundo olha para as instituições internacionais com sentimentos contraditórios. Por um lado, estas são chamadas a responder a desafios que nenhum Estado pode enfrentar sozinho; por outro lado, estas mesmas instituições enfrentam uma crise de eficiência, sobretudo quando o diálogo é considerado um freio à ação em vez de um recurso para a paz, como uma forma de hipocrisia em vez de uma oportunidade de procurar em conjunto o bem. Perante estas derivas, é necessário promover a confiança, uma virtude que hoje parece tão rara quanto desejada: confiança de que as diferenças não constituem necessariamente uma ameaça, de que o diálogo sincero possa gerar um bem maior do que aquele que cada um poderia construir por si só. A Santa Sé deseja infundir esta confiança na UNESCO, tal como nas outras Organizações Internacionais, consciente de que cada povo possui uma riqueza a partilhar ao longo da busca daquele progresso autêntico, que só a paz pode garantir. Não se trata de pregar um otimismo ingénuo que ignore as dificuldades, mas sim de perseverar na esperança de que o bem é sempre possível. Cada filho que nasce traz consigo uma esperança. Cada homem e mulher que dedica a sua vida à busca da verdade realiza um ato de esperança. Por conseguinte, que a UNESCO testemunhe esta esperança, promovendo o entendimento entre as nações, através do diálogo entre as respectivas culturas. Acreditamos que a educação seja o instrumento para superar medos recíprocos e que a ciência possa servir a vida de cada ser humano, semeando no presente a boa colheita do futuro. Esta confiança alimenta a nossa esperança na caridade, ou seja, no serviço ao bem do próximo: dedicando-nos todos com coerência à nossa magnífica humanidade, a paz poderá finalmente florescer.

Ao colaborar nesta obra, as tradições religiosas desempenham um papel culturalmente necessário e insubstituível, e as religiões exprimem as nossas questões sobre a origem da vida e o seu fim, elaborando o sentido primeiro e último da existência, que se reflete nas escolhas quotidianas. Na verdade, quando os homens e as mulheres de boa vontade orientam as suas ações para Deus, o pluralismo das culturas não se dispersa na desordem de Babel. A humanidade encontra-se, pelo contrário, numa busca comum de sentido, orientada para um destino que não é a morte. Não caminhamos para o nada. Por isso, a alma humana, na sua relação com Deus, toma consciência ainda mais intensamente do chamamento a cultivar a paz através de uma aliança entre povos que se reconhecem como filhos do mesmo Pai e como irmãos e irmãs entre si.

Espero, pois, que o nosso encontro reforce o compromisso de cada um em trabalhar incansavelmente, para que a consciência de pertencer a uma única humanidade se torne mais viva, ativa e reta. Quanto a isto, desejo expressar os meus sinceros agradecimentos a todos os funcionários da UNESCO, que desempenham com competência e dedicação esta missão tão nobre: construir a paz cultivando todas as ciências e artes da humanidade.

Dirijo estas palavras a todos vós, aos povos que representais e, em especial, aos jovens. São precisamente as novas gerações que observam com maior atenção o que fazemos. Ao apoiar os seus anseios de justiça, com gratidão e estima invoco sobre todos vós e sobre as vossas Nações a abundância das bênçãos de Deus, Criador todo-poderoso e misericordioso. Obrigado.