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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV
À ESPANHA

(6-12 DE JUNHO DE 2026)

ENCONTRO COM A COMUNIDADE DIOCESANA DE MADRID

DISCURSO DO SANTO PADRE

Estádio Santiago Bernabéu (Madrid)
Segunda-feira, 8 de junho de 2026

[Multimídia]

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Queridos irmãos, queridas irmãs: boa tarde!

Suponho que, para um futebolista, fazer um golo neste estádio é algo que deixa uma marca na sua vida. Hoje, porém, Dom José, a Igreja de Madrid marcou um golaço para sempre! Obrigado!

Esta noite é um grande hino de fé e é com prazer que uno a minha voz à vossa para louvar a Deus e fortalecer os laços de uma família eclesial tão bela que está a aprender a arte da polifonia, ou seja, da unidade na diversidade. Agradeço ao vosso Arcebispo, Dom José, por ter introduzido a parábola do canto, que mostra como os números, os dados e os eventos não são suficientes para criar comunidade: o nosso coração precisa de cantar, ou seja, interpretar os acontecimentos e as situações, celebrando com os outros o sentido que eles irradiam. Para a Igreja, isto acontece de forma singular na liturgia, o grande Memorial da história que nos salvou.

Cantar é uma necessidade que impregna a convivência e interpela a cultura, incitando-a a permanecer aberta e em constante evolução. Vós sois a Igreja diocesana no seio de um povo que ama a música, a dança e o estar juntos, mas que também conhece os conflitos, a resignação e, por vezes, o desespero, situações em que o Evangelho pode abrir um caminho para a esperança. Vós testemunhais o Evangelho na capital de um grande país europeu, sede de instituições e organizações onde se tomam decisões importantes para o presente e o futuro, mas também destino de milhões de visitantes e de irmãos e irmãs em busca de novas oportunidades. A vossa alegria será contagiante se deixar de ser uma emoção passageira, para se tornar um modo estável de ser, um sentimento profundo que renova as pessoas, os grupos e a comunidade diocesana. Não é por acaso que os apóstolos, nos seus escritos, frequentemente convidem as igrejas à alegria, recomendando-a quase como um mandamento. É a Evangelii gaudium (a alegria do Evangelho), uma resposta coral à obra de Deus em Jesus Cristo: a sua vida, morte e ressurreição mudaram para sempre, naqueles que O encontraram e seguiram, a percepção da história, ainda que de formas e por caminhos diferentes. Também hoje o amor de Cristo nos impele (cf. 2 Cor 5, 14) – o verbo que São Paulo utiliza significa, além disso, “nos cativa”, “nos mantém unidos”, “nos possui” – e assim nos chama à responsabilidade da ação.

Sim, queridos irmãos e irmãs, como alguns de vós testemunharam esta tarde, o Batismo transforma verdadeiramente a vida. As nossas sensibilidades, origens e prioridades encontram-se em Cristo e recebem dele a seiva, como os ramos da videira. Concretamente, isto significa que muito do que já havia em nós se transforma, porque se orienta para o serviço, deixa de ser um dom privado e serve o bem comum. Não há que temer a realidade de isso nunca produzir uniformidade. A este respeito, o Novo Testamento dá testemunho, na variedade das suas vozes, da comunhão na diversidade, ou seja, da compreensão, que havia desaparecido em Babel, onde todos – obrigados a um projeto totalitário e meramente humano, segundo o relato bíblico – acabaram por não compreender o seu próximo.

Na Encíclica Magnifica humanitas, propus, como alternativa à homogeneização e à confusão, a figura de Neemias, que envolve toda a comunidade na reconstrução dos muros de Jerusalém. «Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade. No âmbito desta obra partilhada, os cristãos encontram a sua forma específica de construir: orientar a ação para Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último» (Magnifica humanitas, 10).

Existe, portanto, uma relação especial entre a Igreja e a cidade, que assume ainda maior importância na mudança de época que estamos a viver: uma relação que se concretiza naturalmente entre pessoas de carne e osso, nas relações laborais e de proximidade, mas também nas diversas comunidades, associações e entidades de bairro. Tornar-se-á cada vez mais evidente a especificidade da missão cristã no seio das grandes realidades urbanas, onde «uma cultura inédita palpita e está em elaboração» (Evangelii gaudium, 73). A clareza sobre este ponto amadureceu muito ao longo do caminho sinodal, o que nos permitiu conhecer-nos e ouvir-nos com maior profundidade nos contextos em que a comunidade diocesana vive e se configura. A questão que se torna mais importante é: aquilo que somos e fazemos como cristãos chega «aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas», ou seja, aos «núcleos mais profundos da alma das cidades»(ibid. 74)? É certo que dar uma resposta pode ser difícil, mas é possível se buscarmos juntos a verdade.

Por isso é tão importante não nos dispersarmos nem nos fecharmos cada um no grupo ou no ambiente em que já nos sentimos seguros, entre pessoas que cantam sempre a mesma melodia. Para chegar ao coração da cidade, é preciso cultivar a consciência de que a verdade é sinfónica e sempre nos ultrapassa, e cultivar o desejo de encontrar o Ressuscitado, que vai sempre à nossa frente, nos precede e talvez já esteja presente onde ainda não O procurámos. Por isso, procurá-Lo e segui-Lo é a condição para O indicar: caso contrário, não há evangelização, e podemos compreender isto melhor hoje do que no passado. Nas grandes cidades, mais do que noutros lugares, parece-nos por vezes já não termos os mapas para orientarmo-nos com segurança. Por isso, é preciso reaprender a arte espiritual de ser cordiais, sem a qual até mesmo o anúncio do Evangelho corre o risco de se tornar uma repetição impessoal e, ao perder eficácia, abrir espaço à frustração e à desconfiança.

Queridos irmãos, Madrid é uma grande cidade onde convivem tradições e “almas” diferentes. Deus conhece, um a um, os corações dos seus habitantes. Conhece-os como só Ele sabe e pode fazê-lo, isto é, no amor e, portanto, na liberdade. Ele é misericórdia infinita e deseja que todos se salvem. Deseja-o ao ponto de se fazer carne e carregar sobre si todo o pecado, o mal e o que há de negativo no mundo. E aqui está Jesus Cristo! Eis a Boa Nova, a graça que recebemos e que somos chamados a partilhar com todos! Porque todos, sem exceção, são feitos para a vida e para a vida em plenitude. A presença da Igreja numa grande cidade é uma parábola deste mistério da salvação. Vem-me à mente o livro de Jonas, uma joia da Bíblia que vos convido a ler ou a reler, pessoalmente e em comunidade. Não é por acaso que foi precisamente nas cidades que os apóstolos implantaram a Igreja nascente, encontrando não só rejeição, mas também acolhimento onde, de forma mais natural, as pessoas se deparam com a diversidade e a mudança.

Nada vos perturbe, nada vos assuste! Juntos, como Igreja diocesana, podeis oferecer o testemunho evangélico que liberta as melhores forças de uma humanidade bombardeada de imagens e palavras, mas faminta de justiça e sedenta de verdade. Tende confiança no que é cada vez mais evidente: que se pode regressar à fé ou conhecê-la pela primeira vez na idade adulta. Preparai-vos para acolher os novos começos não como uma exceção, mas como a regra da missão. O investimento nos conselhos paroquiais e diocesanos não tem outro objetivo senão este: modificar a sensibilidade de cada um graças a uma escuta mais profunda do que o Espírito diz à Igreja. Seria uma pena reduzi-los a meros trâmites burocráticos. São espaços de escuta recíproca para o exercício do discernimento, sem o qual não só cada um segue o seu caminho, mas corremos o risco de não compreender onde o Senhor nos quer, o que espera de nós, a que conversões nos chama. Quando prestamos atenção a estes espaços, então o culto transforma-se em vida e entre as pessoas surgem laços de fraternidade e projetos de solidariedade.

Convido os sacerdotes a reconhecerem a prática do discernimento comunitário como uma das maiores oportunidades que a sinodalidade oferece ao seu ministério. Queridos irmãos, sem vos afastardes do essencial, deter-vos regularmente com o vosso povo para interpretar a vida dos bairros, as mudanças culturais, as tensões sociais e as práticas eclesiais à luz do Evangelho, enriquecerá e consolará o vosso ministério. Ajudará também cada pessoa e cada comunidade a sair do isolamento e a experimentar a alegria do Espírito Santo. Com efeito, quando reduzimos a vida eclesial a uma rotina em que cada um permanece fechado nos seus hábitos e no seu papel, o que nos falta é o Espírito. Este suscita vocações e une-as, provocando por vezes agitação, discussão, busca de novos equilíbrios. Não vos assusteis com tudo isto, desfrutai-o.

As histórias que ouvimos esta noite contam-nos, ou melhor, “cantam-nos”, quanta vida há nesta Igreja. Alguém deu o seguinte testemunho: “Posso dizer sem hesitar que amo profundamente a Igreja, família de Deus, onde todos temos um lugar”. Outro disse: “Senti uma grande alegria e responsabilidade ao tornar-me um membro mais ativo da comunidade e ao partilhar os meus dons com o resto dos membros da Igreja”. E ainda outros disseram: “Para nós, servir nestes programas não é apenas uma forma de ajudar, mas também uma maneira de retribuir todo o carinho e apoio que recebemos”. Eis a Igreja, queridos irmãos e irmãs! Eis a música do Evangelho, com o seu ritmo contagiante. Quando chega ao coração, faz alguém dizer que se sentiu acolhido de braços abertos, como a irmã que veio do Peru para Madrid. Muitos, como ela e a sua família, no início sentem receio de se aproximar, pois ouviram falar de preconceitos e desilusões. A bondade, mesmo que seja de poucos, pode vencer o medo de muitos. Sede, para todos, como uma Bíblia aberta: que nos vossos rostos e na vossa vida se possa encontrar a Palavra de Deus. O amor é, efetivamente, a linguagem que faz com que todos se sintam em casa. Muito obrigado.

Rezemos juntos, com as palavras que Jesus nos ensinou.

[Pai-nosso]

[Bênção]