MENSAGEM VÍDEO DO PAPA FRANCISCO
PARA O TERCEIRO FESTIVAL
DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
[VERONA, 21-24 DE NOVEMBRO DE 2013]
Saúdo todos os participantes no terceiro Festival da Doutrina Social da Igreja cujo tema é «Menos desigualdades, mais diferenças». Em particular, saúdo o Bispo, Sua Excelência Monsenhor Zenti, e Sua Eminência o Senhor Cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga que dará início aos trabalhos. Dirijo uma saudação a todos os presentes e agradeço ao Rev.do Pe. Vincenzi que desde há anos coordena o Festival.
«Menos desigualdades, mais diferenças» é um título que evidencia a riqueza plural das pessoas como expressão dos talentos pessoais e distancia-se da homologação que mortifica e, paradoxalmente, aumenta as desigualdades. Gostaria de traduzir o título numa imagem: a esfera e o poliedro. A esfera pode representar a homologação, como uma espécie de globalização: é lisa, sem lapidações, igual em todas as partes. O poliedro tem uma forma semelhante à esfera, mas é composta por muitas faces. Gosto de imaginar a humanidade como um poliedro, no qual as multíplices formas, exprimindo-se, constituem os elementos que compõem, na pluralidade, a única família humana. Esta é a verdadeira globalização. A outra globalização — a da esfera — é uma homologação.
Dirijo um segundo pensamento aos jovens e aos idosos; o reconhecimento das diferenças valoriza as pessoas, diferentemente das homologações, que consiste no risco de as descartar porque não são capazes de compreender o significado. Hoje, os jovens e os idosos são considerados descartes porque não respondem às lógicas produtivas numa visão funcionalista da sociedade, não respondem a qualquer critério útil de investimento. Diz-se que são «passivos», não produzem, na economia do mercado não são sujeitos de produção. Contudo, não devemos esquecer que os jovens e os idosos são portadores de uma grande riqueza: ambos são o futuro de um povo.
Os jovens são a força para ir em frente; os idosos são a memória do povo, a sabedoria. Não pode existir desenvolvimento autêntico, nem crescimento harmónico de uma sociedade se a força dos jovens e a memória dos idosos for negada. Um povo que não cuida dos jovens, dos idosos não tem futuro. É por esta razão que devemos fazer todo o possível para evitar que a nossa sociedade produza um descarte social e devemos comprometer-nos todos para manter viva a memória, com o olhar dirigido para o futuro.
Pensemos na percentagem dos jovens que neste momento estão sem trabalho: nalguns países fala-se de 40% ou mais de jovens sem trabalho. Esta é uma hipoteca, é uma hipoteca para o futuro. E se isto não se resolver em breve, sem dúvida teremos um futuro demasiado débil ou um não-futuro.
Dirijo um pensamento também à Doutrina Social da Igreja: o Magistério social é um grande ponto de referência, ele representa uma orientação fruto de reflexão e de acção virtuosa. É muito útil para não se perder. Quem trabalha na economia e nas finanças certamente sente-se atraído pelo lucro e se não estiver atento, põe-se ao serviço do lucro, e torna-se escravo do dinheiro. A Doutrina Social contém um património de reflexão e de esperança que é capaz também hoje de orientar as pessoas e de as manter livres. É necessário coragem, um pensamento e a força da fé para estar dentro do mercado, guiados por uma consciência que põe no centro a dignidade da pessoa, não o ídolo do dinheiro.
Na prática, tudo isto não é sempre evidente, mas se nos ajudarmos reciprocamente, perseguir o bem torna-se a escolha que é confirmada também com os resultados. A Doutrina Social, quando é vivida, gera esperança. É deste modo que cada um pode encontrar dentro de si mesmo a força para promover com o trabalho uma nova justiça social. Poderíamos afirmar que a aplicação da Doutrina Social contém em si uma mística. Repito a palavra: uma mística. Parece que te priva imediatamente de algo: parece que o facto de a aplicar te exclui do mercado, das regras correntes. Ao contrário, olhando para os resultados globais, esta mística origina um grande lucro, pois é capaz de criar desenvolvimento precisamente porque — na sua visão geral — exige que se cuide dos desempregados, das fragilidades, das injustiças sociais e não se submete às deformações de uma visão economicista.
A Doutrina Social não tolera que os lucros sejam de quem produz e que a questão social seja entregue ao Estado ou às obras de assistência e de voluntariado. Eis por que a solidariedade constitui uma palavra-chave da Doutrina Social. Mas nós, neste tempo, corremos o risco de a tirar do dicionário, porque é uma palavra incómoda, ou também — permitam-me — quase um «palavrão». Para a economia e o mercado, a solidariedade é quase um palavrão.
Desejo expressar também um pensamento sobre a cooperação: encontrei-me com alguns representantes do mundo das cooperativas. Há meses, aqui neste salão, tivemos uma reunião. Isto confortou-me muito e penso que é uma boa notícia para todos sentir que, para enfrentar a crise, o lucro diminuiu, mas manteve-se o nível ocupacional. O trabalho é muito importante. Trabalho e dignidade da pessoa caminham juntos. A solidariedade deve ser aplicada também para garantir o trabalho; a cooperação representa um elemento importante para garantir a pluralidade de presenças entre os empregadores no mercado. Hoje ela é objecto de uma certa incompreensão também a nível europeu, mas penso que não considerar actual esta forma de presença no mundo produtivo constitui um empobrecimento que deixa espaço às homologações e não promove as diferenças e a identidade.
Recordo — eu era ainda jovem — quando tinha 18 anos: era o ano de 1954, ouvi o meu pai fazer uma conferência sobre o cooperativismo cristão e a partir daquele momento entusiasmei-me com isso, vi que aquele era o caminho. É precisamente o caminho para a igualdade, não homogeneidade, igualdade nas diferenças. Inclusive economicamente é lento. Recordo também aquela reflexão do meu pai: vai em frente lentamente, mas convicto. Quando ouço falar sobre outras teorias económicas, como a do «derrame», a experiência indica-nos que aquele caminho não é certo.
Desejo a todos os que estão comprometidos e são protagonistas de reformas cooperativistas, que mantenham viva a memória da sua origem. As formas cooperativas constituídas pelos católicos como tradução da Rerum novarum testemunham a força da fé, que hoje como outrora é capaz de inspirar acções concretas para responder às necessidades do nosso povo.
Hoje isto é de grande actualidade e impele a cooperação a tornar-se um elemento capaz de pensar nas novas formas de Welfare. Faço votos a fim de que possais revestir a continuidade de novidade. E assim imitamos também o Senhor, que nos faz sempre ir em frente com surpresas e novidades. Acompanho-vos com a minha bênção e, vós, não vos canseis de rezar por mim, porque realmente necessito disto. Obrigado!
Home
Atualidade
Palavras do Santo Padre
Boletim de Sala de Imprensa
Foto
Video ao vivo
Tour Virtual
Busca