PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA
Santidade é liberdade
Terça-feira, 29 de maio de 2018
Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 7 de junho de 2018
Santidade é liberdade e ruptura dos esquemas mundanos que nos mantêm prisioneiros num bem estar aparente: eis o caminho cristão de esperança sugerido pelo Papa Francisco.
Inspirando-se na primeira leitura, tirada da primeira carta de Pedro (1, 10-16), o Pontífice observou que «o apóstolo nos recorda o mandamento, digamos assim, que o próprio Deus e os profetas sempre nos confiaram: o mandamento de ir, de caminhar rumo à santidade». De facto, Pedro escreve: «Sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo”».
«O modelo de santidade é simples mas não é fácil ser santo como o nosso Pai do céu», observou Francisco, recordando que «a chamada à santidade, que é normal, é a chamada a viver como cristão, isto é, viver como cristão é o mesmo que dizer “viver como santo”».
«Muitas vezes pensamos na santidade como algo extraordinário, como ter visões ou recitar orações elevadíssimas» afirmou o Papa. «Alguns até pensam que ser santo signifique ter uma cara de santinho». Ao contrário, explicou o Pontífice, «ser santo é outra coisa: consiste em caminhar baseados no que o Senhor nos diz sobre a santidade». Pedro explica claramente o que significa «caminhar na santidade: “colocai toda vossa esperança na graça que vos será dada no dia em que Jesus Cristo aparecer”».
Portanto, afirmou Francisco, «caminhar para a santidade é ir rumo à luz, aquela graça que vem ao nosso encontro». E «é curioso», observou, que «quando caminhamos rumo à luz muitas vezes não vemos bem o percurso, porque a luz nos ofusca». Mas depois «não erramos porque vemos a luz e conhecemos a estrada».
Mas, ao caminhar com a luz atrás de nós vê-se bem a estrada, «contudo na nossa frente não há luz: só sombra» disse o Papa. Portanto «caminhar rumo à luz é ir rumo à santidade». Embora «nem sempre se distingue bem a estrada, mas é caminhar em direção da luz, rumo à esperança». Por isso, «caminhar rumo à santidade é estar em tensão para o encontro com Jesus Cristo».
«Mas há outra situação que não é fácil — advertiu o Pontífice — dado que para caminhar deste modo é necessário que sejamos livres e nos sintamos livres, e existem muitas coisas que nos escravizam». A este propósito «Pedro oferece-nos um conselho: “À maneira de filhos obedientes, já não vos amoldeis aos desejos que tínheis antes, no tempo da vossa ignorância”». A sugestão é que não vos deixeis levar «por aqueles desejos que conduzem por outro caminho: vivíeis na ignorância e sentíeis desejos» que não eram «os desejos de Deus».
Na primeira carta aos Romanos, Paulo «usa a mesma expressão como um conselho». Ele diz: «não entreis — ali a tradução é “não vos conformeis, não entreis nos esquemas”: esta é a tradução correta deste conselho — nos esquemas do mundo, não entreis nos esquemas, no modo de pensar mundano, na maneira de pensar e de julgar que o mundo te oferece, porque isto te tira a liberdade».
«Para caminhar na santidade é preciso ser livre: a liberdade de prosseguir olhando para a luz, de ir em frente» afirmou Francisco. E «quando voltamos, como diz aqui, para o modo de viver que tínhamos antes do encontro com Jesus Cristo ou quando voltamos para os esquemas do mundo, perdemos a liberdade».
«Isto não é uma novidade», explicou o Pontífice, observando: «Se lermos o livro do Êxodo notamos certamente muitas vezes que o povo de Deus não quis olhar para a frente, rumo à salvação, mas voltar para trás; diz que se lamentava porque tinha esquecido que Deus o levava para frente, para a terra que tinha prometido». E «imaginava a vida boa que levava no Egito: lá comia cebolas, carne», enquanto «no deserto» sofria «a fome». Acontece que «nos momentos de dificuldade o povo volta atrás, não suporta, perde a liberdade». «É verdade que no Egito nutria-se de iguarias mas pergunto-me: em qual refeitório as comia? No refeitório da escravidão».
«No momento da provação — continuou Francisco — sentimos sempre a tentação de olhar para trás, de olhar para os esquemas do mundo, para os esquemas que tínhamos antes de dar início ao caminho da salvação: sem liberdade». «Sem liberdade não podemos ser santos: a liberdade é a condição para poder caminhar olhando para a luz em frente».
Eis a sugestão do Papa a «não entrar nos esquemas da mundanidade», mas a «caminhar para a frente, olhando para a luz que é a promessa, com esperança». É a mesma «promessa» do «povo de Deus no deserto: quando olhava para a frente ia bem; quando sentia nostalgia porque não podia comer as comidas boas que lhe davam no Egito, errava e esquecia que lá não tinha liberdade».
«O Senhor chama-nos à santidade, santidade de todos os dias», insistiu o Pontífice. E para compreender se «estou a caminho rumo à santidade há duas medidas de comparação». A primeira é verificar «se olhas sempre para a frente rumo ao Senhor, para a luz do Senhor na esperança de o encontrar». A pergunta que devemos formular a nós mesmos é: «Tens vontade de te encontrar com o Senhor?». E se respondermos: «Mas não entendo o que é isto», então significa que «algo não corre bem». Por conseguinte, «a primeira pedra de comparação é: tens esperança, caminhando rumo à luz do encontro com o Senhor?».
«O segundo parâmetro — prosseguiu Francisco — é o que fazes quando chegam as provações: continuas a olhar para a frente ou perdes a liberdade, refugiando-te nos esquemas mundanos que te prometem tudo e nada te dão?».
«“Sede santos, porque eu sou santo” é o mandamento do Senhor», repetiu o Papa. Acrescentando, na conclusão: «Peçamos a graça de entender bem qual é o caminho da santidade, esta senda da liberdade mas em tensão de esperança rumo ao encontro com Jesus». E também «entender bem o que significa voltar aos esquemas mundanos que tínhamos, todos nós, antes do encontro com Jesus Cristo».
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