PAPA FRANCISCO
MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA
Ver com o coração
Terça-feira, 19 de setembro de 2017
Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 39 de 28 de setembro de 2017
O que significa «ver com o coração», sentir deveras «compaixão» e não simples «pena» diante da dor das pessoas. A este tema o Papa dedicou a meditação da missa celebrada em Santa Marta. Inspirando-se no trecho evangélico do dia (Lc 7, 11-17) com a narração do encontro de Jesus com a viúva de Naim, o Pontífice aproveitou a ocasião para uma catequese sobre a relação do cristão com o sofrimento dos pobres e dos marginalizados.
Francisco começou evidenciando que Jesus, embora estando com os discípulos no meio da multidão, «teve a capacidade de ver uma pessoa», uma «viúva que ia sepultar o seu único filho». É preciso observar, recordou, que «no Antigo Testamento, os mais pobres eram as viúvas, os órfãos e os estrangeiros, os forasteiros». Na Escritura aparecem continuamente exortações do tipo «Cuidai das viúvas, dos órfãos e dos migrantes». De resto, «a viúva fica sozinha, o órfão precisa de cuidados para se inserir na sociedade» e ao estrangeiro, ao migrante se faz constantemente referência no exílio do Egito. É um verdadeiro «refrão no Deuteronómio, no Levítico... é um refrão... nos Mandamentos...». Parece, acrescentou o Papa, que eles eram precisamente «os mais pobres, até mais pobres do que os escravos: a viúva, o órfão e o migrante, o forasteiro, o estrangeiro».
Uma atenção que se nota na atitude de Jesus que «tem a capacidade de ver os detalhes»: havia uma grande multidão mas «Jesus vê com o coração».
Então o Pontífice analisou o comportamento de Jesus e indicou «três palavras que nos ajudam a compreender o que fez» para estar ao lado da viúva, para «ir pelo mesmo caminho».
Antes de tudo, «sentiu compaixão». De facto, lê-se que «Vendo-a, o Senhor sentiu grande compaixão por ela». «A compaixão — explicou Francisco — é um sentimento que envolve, é um sentimento do coração, das vísceras, envolve tudo». Principalmente, «não é o mesmo que “pena”», ou o de quem diz «... que pena, pobrezinhos!”: não, não é o mesmo». Com efeito, a compaixão «associa. É “sofrer com”». E Jesus «associa-se a uma viúva e a um órfão...». Alguém, disse o Pontífice, poderia objetar: «Mas tu tens uma multidão, por que não falas à multidão? Deixa... a vida é assim... são tragédias que acontecem, sucedem...». Mas «não. Para ele eram mais importantes a viúva e o órfão falecido do que a multidão à qual estava a falar e que o seguia».
«Porquê?» questionou-se o Papa. E a resposta foi «Porque o seu coração, as suas vísceras foram envolvidos», isto é, «sentiu compaixão».
Depois há uma «segunda palavra» a observar: Jesus «aproximou-se. A compaixão impeliu-o a aproximar-se». Explicou Francisco: «Posso ver muitas coisas sem me aproximar. Talvez sinta qualquer dor...», ou pense: «pobres pessoas...». Mas aproximar-se é outra coisa. O Evangelho acrescenta um pormenor: Jesus disse à mulher «não chores». E o Pontífice, a tal propósito revelou que lhe apraz pensar que «o Senhor, enquanto dizia isto àquela mulher, a acariciou», que «tocou nela e no ataúde». É preciso, disse, «que nos aproximemos e toquemos a realidade. Tocar. Não ver de longe».
Depois houve o milagre da ressurreição do filho da viúva, e «Jesus não diz. “Até à vista, continuo o caminho”: não», mas «conduz o jovem, dizendo: “Restituo-o à sua mãe”». Eis então a terceira palavra-chave: «restituir. Jesus realiza milagres para restituir, para pôr as pessoas no próprio lugar». E, acrescentou o Papa, foi precisamente «o que fez com a redenção. «Deus sentiu compaixão, aproximou-se de nós no seu Filho e restituiu todos nós à dignidade de filhos de Deus. Recriou-nos todos».
Um exemplo que todos os cristãos devem seguir na vida diária: «Também nós devemos fazer o mesmo», explicou o Papa, dando uma sugestão concreta. De facto, acontece que «muitas vezes assistimos aos telejornais ou vemos as primeiras páginas dos jornais, as tragédias... mas olha... naquele país as crianças não têm o que comer; naquele país as crianças são soldados; naquele país as mulheres são escravizadas; naquele país... oh, que calamidade! Pobrezinhos...», depois contudo: «viro a página e passo ao romance, à telenovela que vem em seguida. Isto não é cristão».
Eis a exortação a fazer um exame de consciência: «Sou capaz de sentir compaixão? De rezar? Quando vejo essas situações, que chegam dentro da minha casa, através dos meios de comunicação, da tv... movem-se as vísceras? O coração sofre por aquelas pessoas, ou sinto pena, digo “pobrezinhos”» e acaba assim...?
E, acrescentou Francisco, se nos dermos conta disto, devemos «pedir a graça: “Senhor, concedei-me a graça da compaixão!”».
Do mesmo modo, quando nos encontramos com uma pessoa necessitada: «Aproximo-me? Há muitos modos de nos aproximarmos... Ou procuro ajudar de longe?». Com efeito, há quem se justifique: «Sabe, padre, que essas pessoas cheiram mal e não gosto de o sentir, porque elas não tomam banho, exalam cheiro forte...».
E ainda, disse o Pontífice, cada cristão deveria questionar-se: «Sou capaz — com a oração de intercessão, com a minha obra de cristão — de ajudar a fim de que as pessoas que sofrem sejam restituídas à sociedade, na vida de família, na vida de trabalho, na vida diária?».
Eis a exortação final: «Pensemos nestas três palavras: ajudar-nos-ão. Compaixão, aproximar-se, restituir» e o convite a rezar a fim de que «o Senhor nos conceda a graça de sentir compaixão diante de quem sofre, nos conceda a graça de nos aproximar e a graça de os conduzir pela mão ao lugar de dignidade que Deus deseja para eles».
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